Jurassic Pork

Jurassic Pork — o guia definitivo do universo Gomiraná

Onde o bacon ruge e o café canta.

PASTA 01 · APRESENTAÇÃO · CADERNO DE 09/09/2026

Propriedade da Roçaflix · acesso restrito

Existe um lugar no Brasil que não aparece no mapa.

Não aparece porque o cartógrafo responsável foi transferido. E o substituto dele foi transferido também. E o terceiro simplesmente não voltou do almoço.

O lugar se chama Gomiraná.

É um estado. Com governador, com prefeitos, com bandeira, com hino. Com tudo que um estado decente tem. Só que nenhum estado decente tem um tiranobacon rex no quintal de um fazendeiro.

Mas Gomiraná tem.

Na verdade, Gomiraná tem muitas coisas que outros estados não têm. Tem pterofrango, que é basicamente um pterodáctilo com gosto de frango. Tem velociraporkys, que andam em bandos e podem devorar um milharal em poucas horas. Tem milho carnívoro, mandioca que explode. E uma roseira que se você chegar perto ela te morde. A roseira te morde.

Tudo isso surgiu de um acidente. Como a maioria das coisas ruins no mundo, começa com alguém tentando ganhar dinheiro rápido. Um grupo de ex-funcionários de fast-food decidiu que o interior de Gomiraná era o lugar perfeito pra desenvolver o milkshake de esfiha. Não me pergunte o porquê. Ninguém nunca perguntou. E provavelmente é melhor assim.

O problema é que o barracão onde eles montaram a cozinha deles ficava ao lado de um laboratório cheio de químicos experimentais e ilegais que um coronel ganancioso esqueceu de limpar. Os gênios derrubaram a parede. Misturaram tudo. E antes que alguém percebesse o estrago, ganharam na loteria e foram embora.

Deixaram pra trás um solo contaminado, nascentes envenenadas, e uma reação em cadeia genética que ninguém pediu. Os químicos se misturaram com fósseis de dinossauro que repousavam esquecidos no chão daquela região. E as plantas mutaram. E os bichos que comeram as plantas mutaram. E os bichos que comeram os bichos que comeram as plantas mutaram também. E assim por diante, num dominó biológico que até hoje não parou.

E no meio disso tudo, tem o Júlio.

Júlio é um fazendeiro. Gordo, barbudo, mal-humorado, com uma camisa xadrez que ele provavelmente usa desde o governo anterior. Ele não pediu pra ser herói. Ele só queria ficar em paz. Mas quando você cria um leitãozinho rejeitado e ele se transforma num Tiranobacon Rex... a paz meio que cancela o contrato.

O tiranobacon se chama Baby. Quatro metros de altura. Duas toneladas. Pele rosa. Dentes do tamanho da sua cabeça. E atende pelo nome. Às vezes. Quando quer. Que é quase nunca.

Tem também a Asa Branca, que é um pterofrango com a asa enfaixada. O Júlio encontrou ela com a asa machucada, cuidou, e agora ela mora no telhado do galinheiro. Galinheiro que agora não tem mais galinha, porque galinha nenhuma com instinto de sobrevivência aceita dividir quintal com um dinossauro de bacon.

E tem o Geleia. Buldogue. Dorme vinte horas por dia. Não faz nada. Absolutamente nada. Mas se você perguntar pro Júlio, o Geleia é o membro mais confiável da família. Porque pelo menos ele não dá problema.

Diferente do Mirto.

Mirto Pena é o melhor amigo do Júlio. E quando digo amigo, eu digo cruz. Mirto acorda todo dia com uma ideia nova. Toda ideia do Mirto começa com a frase "escuta só" e termina com o Júlio no prejuízo. É uma constante da natureza, tipo gravidade. Você pode não gostar, mas não tem como evitar.

Mirto já tentou vender ovo de pterofrango. Já tentou montar cavalgada de mula mutante. Já tentou abrir restaurante de carne de criatura. Nenhum destes planos deu certo. Todos custaram dinheiro do Júlio. E mesmo assim, no dia seguinte, o Mirto aparece de novo. Moto velha, buzina desafinada, brilho no olho. "Escuta só."

E o Júlio, que é um homem inteligente, que sabe que vai dar errado, que já passou por isso quarenta e sete vezes... vai junto toda vez. Porque, no fundo — e isso o Júlio nunca vai admitir — num tem mais ninguém que convide ele pra fazer besteira. E fazer besteira sozinho é só tristeza. Fazer besteira com alguém pelo menos é história pra contar.

E história é o que não falta em Gomiraná.

Tem a história do Coronel Milhano, que é o homem mais rico da cidade e provavelmente o mais responsável por tudo ter dado errado. Mas ele anda de chapéu branco e fala manso, então ninguém desconfia. Ou desconfia e finge que não. Que no interior dá na mesma.

Tem a história das cinco famílias, que controlam o crime organizado com nomes como: Família Boi Preto, Família Espeto de Ouro, Família Sal Grosso. Porque em Gomiraná até o crime organizado tem cheiro de churrasco.

Tem a história dos Ursinhos Rancorosos. Que são exatamente o que o nome diz. Sete ursinhos de pelúcia táticos que aparecem de helicóptero quando alguém pronuncia a palavra rancor com sentimento genuíno. Eles cobram dívidas emocionais. Aquela vez que você entrou de penetra no casamento do seu vizinho em 2014? Eles sabem. E eles vão cobrar com juros.

Tem a história do Berinjanos, que é o vilão mais perigoso do estado e cujo nome eu não vou explicar porque só o nome já dá medo.

Tem a história da Ana Malia Plaga, que cozinha criatura mutante e fez um chef francês desmaiar ao servir tempura de gafanhoto gigante na feira.

Tem a história do Cleitinho dos Teclados, que é o ser humano mais calmo de Gomiraná e que jura de pé junto que viu milho andando.

E tem a história da dupla Brasa e Fumaça. Dois músicos que transformaram sofrência em churrasco e churrasco em sofrência. O maior hit deles se chama "Prometi Picanha, Entreguei Salsicha". E se você ainda não ouviu, eu lamento informar que já é tarde demais. Porque depois que essa frase entra na sua cabeça, ela não sai mais. Como um velociraporkys no galinheiro. Só que musical.

Tudo isso acontece em Gomiraná. Todo dia. E as pessoas de lá tratam tudo isso como normal. Porque é normal, pra eles.

O dinossauro no quintal é terça-feira. A mula mutante é quinta. O ursinho de pelúcia cobrando trauma de infância é sábado. E no domingo, todo mundo vai pro bar do Zé Goteira tomar uma e fingir que tá tudo bem.

Porque em Gomiraná, o absurdo não é o que acontece. O absurdo seria se nada acontecesse.

Isso é Jurassic Pork. E se você achou estranho... é porque você ainda não mora aqui. Mas dá tempo.

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